A paixão das pessoas pelo que estão fazendo é o que
abastece o espírito empreendedor em cada um. Mas a responsabilidade por acender
essa chama na empresa é tanto do funcionário quanto da organização.
Adoro conhecer e entender a vida de empreendedores.
Quando reconheço um, fico até chato de tanto perguntar sobre sua história. A
maioria adora – bom para mim! Acho que sempre existe muito o que aprender
com aqueles que conseguiram empreender em suas vidas.
Obviamente existem alguns pontos em comum na
história dessas pessoas. Um deles, que identifico na grande maioria, é o quanto
foram (e são) realmente apaixonadas por algo – uma ideia, uma tarefa, um sonho
– e o quanto todas as dificuldades encontradas não foram desculpas para que
suas buscas deixassem de ser realizadas.
Aliás, normalmente
foram muitas as dificuldades e, consequentemente, os sacrifícios. E, quando
normalmente pergunto “valeu a pena?”, elas são bem certeiras: dizem que fariam
tudo de novo.
Está justamente aí uma parte muito importante do
que significa empreender. Quando passamos a considerar a possibilidade de
empreender dentro de uma empresa, não podemos desconsiderar como esta paixão se
impõe, dentro de duas perspectivas distintas, porém complementares.
A primeira é a perspectiva do indivíduo que de
alguma forma escolheu estar em uma determinada organização. De que forma ele
teria feito tal escolha?
Nosso modelo de educação (tanto formal quanto
informal), como muitos comentam, é transacional, focado em transferência de
conhecimentos, regras, padrões que deram certo ou no passado, o que não
necessariamente nos ajuda a saber escolher. Escolher significa legitimar uma
busca pessoal, com todos os benefícios, consequências e responsabilidades que
ela traz consigo.
É impressionante como, no ambiente das
organizações, encontro pessoas infelizes. E, na maioria das vezes, na
perspectiva das pessoas a responsabilidade por esta infelicidade é sempre das
empresas – pelo salário incompatível, pela falta de espaço para crescimento,
pelo não envolvimento com os indivíduos, para ficarmos nos aspectos mais
recorrentes. Esquecem que no final das contas escolhemos estar onde estamos e
podemos escolher como lidar com situações que muitas vezes não são as que
queremos. Dentro das empresas, o empreendedorismo nas pessoas (representado por
suas buscas e suas paixões) só surgirá se elas escolherem estar ali, naquele
trabalho, independentemente das dificuldades, da falta de recursos e dos
problemas que possam enfrentar.
A segunda perspectiva é a da organização, ou
daqueles que a representam em alguma circunstância. Será que nós, como
líderes e gestores, sabemos contratar pessoas apaixonadas? Vejo que o padrão de
captação de profissionais ainda está muito focado em competências concretas,
técnicas, acadêmicas. Não que não sejam importantes, mas poucas organizações de
fato buscam compreendê-los a partir de suas vivências diversas, de suas
experiências, de suas buscas – enfim, de suas paixões. Aliás, acho que nem
estamos muito preparados para isso. E mais: será que nos comprometemos a
alinhar os papéis dos profissionais que já estão conosco àquilo que eles
realmente se dedicaram a realizar vigorosamente para o benefício da
organização?
Visitei recentemente uma grande empresa que tinha o
desafio de estimular o intraempreendedorismo. Conversando com as pessoas,
ficou claro que o que procuravam não eram suas paixões, mas títulos, melhores
salários (apenas pelos salários, sem que estivessem relacionados a realizações
que os justificassem). Seus executivos tornaram-se vítimas de si mesmos. Não
faziam o que queriam, mas não se davam a oportunidade de mudar. Como o
empreendedorismo pode se manifestar nesse ambiente.
É certo que existem outros pontos para que o
empreendedorismo seja uma realidade dentro das organizações: outras atitudes,
processos e tarefas que o suportem, recursos adequados (apesar de achar que, às
vezes, a falta de recursos pode até ajudar). Mas nada disso pode ser discutido
sem a condição básica de existirem pessoas dedicando às organizações o
potencial ilimitado de suas almas – um ganho surpreendentemente significativo
se contraposto ao hábito vigente de nos satisfazermos com a mera presença de
corpos que já se acostumaram a apenas estar lá.
Algumas dicas práticas para ter pessoas apaixonadas
dentro da organização:
1.
Procure entender em um aspecto mais amplo quem são
as pessoas que estão do seu lado, transcenda dos aspectos técnicos: Qual a
história de vida dessas pessoas? Tente identificar quais foram as escolhas que
elas fizeram, que riscos tomou para realizar suas escolhas. Por exemplo :
algumas pessoas passam por restrições financeiras para conseguir concluir a
graduação que queria, ou usou formas criativas em um trabalho onde precisou
enfrentar bastante resistência e mesmo assim não desistiu;
2.
Tente entender que temas são aqueles que brilham os
olhos das pessoas- Para isso não tente enquadrar qualquer conversa, deixe-as
fluírem e tente observar quais são os pontos que as entusiasmam;
3.
Tenha sempre momentos onde se possa entrar na
informalidade – a informalidade permite acessar o que existe de mais genuíno
nas pessoas e gerar ambiente de confiança;
4.
Estimule encontros periódicos para falar com as
pessoas sobre como elas se vêem na organização, se realmente existe alinhamento
entre as expectativas dos dois lados;
5.
Caso não haja alinhamento, se esforce para tratar a
situação com maturidade. Isso significa que caso alguém não se veja na
organização ela não precisa sair ou ser demitida imediatamente. Um saída
planejada pode garantir uma transição sem rupturas para os dois lados e a
continuação da relação, já que no futuro esse profissional poderá ter o que contribuir
para sua organização como um fornecedor, um cliente ou até novamente como um
profissional da empresa.
Fonte: Portal Endeavor

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